A realização iminente de mais uma edição do Fórum de
Parceria Rússia-África, com a sua Cimeira de dois dias agendada para os dias 28
e 29 de Outubro em Moscovo, volta a colocar no centro da discussão o equilíbrio
entre a diplomacia económica, a segurança e a proteção de direitos
fundamentais. Embora o foco oficial do evento recaia sobre os negócios,
comércio e segurança, o dossier dos direitos humanos e, em particular, o
alarmante fenómeno do recrutamento fraudulento de cidadãos moçambicanos e
africanos atraídos com falsas promessas de emprego para acabar em campos de
batalha e fábricas de drones ligados ao conflito na Ucrânia ameaça ensombrecer os
corredores diplomáticos.
Este cenário de vulnerabilidade e opacidade externa
encontra paralelismo na própria história recente de segurança interna do país,
marcada pela sombra da presença de mercenários russos e pela crise humanitária
em Cabo Delgado.
A Voz
dos Defensores de Direitos Humanos: Cabo Delgado e Nampula no Limite
No terreno, figuras proeminentes da sociedade civil e
da defesa dos direitos humanos têm denunciado persistentemente os abismos de
vulnerabilidade social que facilitam tanto o aliciamento internacional como a
violência sistémica:
Abudo Gafuro (Ativista e defensor dos direitos humanos
baseado em Cabo Delgado): A actuação e o ativismo na província
recordam que a violência armada começou a 5 de outubro de 2017, com o primeiro
ataque de grande escala em Mocímboa da Praia, escalando para um conflito
prolongado. A fragilidade social na região norte, marcada pelo deslocamento em
massa e pela falta de perspetivas, criou o caldo de cultura perfeito não só
para a insurgência, mas também para o envolvimento de atores externos. Abudo
Gafuro sublinha que a violência tomou níveis assustadores precisamente durante
a passagem dos mercenários russos do Grupo Wagner (contratados em
segredo pelo Governo moçambicano entre Agosto e Novembro de 2019 para apoiar as
FADM): “Estes não respeitavam os direitos humanos e matavam
indiscriminadamente, fossem civis ou terroristas. Foi daí que os próprios
terroristas, em retaliação a estas atitudes, tornaram-se mais violentos e
assassinavam civis, tropas nacionais e até os próprios russos do Grupo Wagner
da forma mais cruel possível”. Mais tarde, após a saída do Grupo Wagner, a
segurança viria a contar com o apoio de forças da SADC e do Ruanda a partir de
meados de 2021.
Gamito dos Santos (Nampula / Associação Kuxukhuro): Reconhecido pelo seu papel incansável na defesa dos direitos humanos a
partir do norte do país, Gamito dos Santos alerta que o ativismo esbarra
frequentemente no analfabetismo generalizado da população, em barreiras
políticas e num sistema que, no seu todo, parece mais forte do que os cidadãos.
É precisamente nestas províncias vulneráveis que redes sem escrúpulos exploram
a falta de informação das comunidades, enganando jovens com falsas promessas de
trabalho digno seja para redes de tráfico internacional, seja para o
aproveitamento forçado em teatros de guerra. O ativista lamenta a repressão
agressiva do Estado através dos serviços de inteligência, forças especiais e da
Unidade de Intervenção Rápida (UIR), apontando que o medo generalizado impede o
escrutínio: “As leis em Moçambique existem; a vontade política para que as
mesmas funcionem é que é o problema. Se as leis funcionassem, colocariam em
risco a permanência da Frelimo no poder e de todos os seus dirigentes, devido à
corrupção, crimes e outros males que assoalham Moçambique”, concluiu.
A
Posição do Governo de Moçambique: Concertação e Silêncio Sob Pressão
Face às denúncias recorrentes de que moçambicanos
estarão a ser enganados com promessas de emprego para depois integrarem linhas
de combate ou indústrias de armamento (como fábricas de drones) na Rússia
contra a Ucrânia a somar aos fantasmas do passado com a contratação opaca de
forças privadas estrangeiras no norte, uma fonte do Governo de Moçambique
garante que não constam da agenda esses temas, mas que há intenção por parte do
governo para que se tenha em conta na mesa de debate mas para tal devera haver
uma concertação diplomática para que os
tais temas possam ser proposta para se colocar na mesa de debate com outros
países participantes que enfrentam suspeitas semelhantes de recrutamento
ilícito dos seus cidadãos.
No entanto, subsiste uma linha ténue entre o discurso
diplomático oficial e a exigência de respostas concretas. Eventos rigidamente
controlados para a gestão de reputação dos anfitriões, como o Fórum em Moscovo,
colocam à prova a vontade real dos parceiros africanos incluindo o Ministério
dos Negócios Estrangeiros (MNE) moçambicano de confrontarem abertamente estas
práticas abusivas em fóruns bilaterais ou multilaterais como este.
O
Desafio da Investigação e o papel dos meios de comunicação
Para desvendar estes fatos exige um escrutínio
rigoroso e um posicionamento firme por parte das entidades competentes (seja o
MNE, o Ministério do Trabalho ou agências de combate ao tráfico). O silêncio
institucional ou a lentidão na resposta governamental não podem continuar a
blindar redes transnacionais de recrutamento de mercenários ou a encobrir abusos
do passado. Dar visibilidade a trabalhos de investigação aprofundados como os
conduzidos por jornalistas e investigadores no terreno (a exemplo do trabalho
desenvolvido por nossa equipa de reportagem) é fulcral para romper a opacidade
em torno de um drama que continua a sacrificar cidadãos africanos em teatros de
guerra distantes e locais sob falsos pretextos.
A Cimeira Rússia-África e o silêncio complacente em
torno do recrutamento de jovens africanos para a guerra na Ucrânia são sintomas
de um mal maior: a subordinação dos direitos humanos à conveniência comercial e
à diplomacia de fachada.
Moçambique não pode continuar a gerir crises
humanitárias com panfletos diplomáticos ou a remeter a segurança dos seus
cidadãos para a inércia burocrática. Para que a posição de Moçambique perante
os parceiros internacionais ganhe credibilidade, o Estado terá de transitar
urgentemente da retórica da "concertação" para a ação implacável no
terreno: desmantelando as redes de tráfico local, dotando os órgãos de justiça
de meios reais e garantindo que a soberania do país não seja cúmplice da
mercantilização da vida da sua própria juventude, tal como exigem as vozes
corajosas da nossa sociedade civil.