O grupo
paramilitar privado sul-africano Dyck Advisory Group (DAG) interveio no combate
ao ataque terrorista em Palma em 2021 a pedido das autoridades moçambicanas,
afirmou na Quarta-feira (23) o seu presidente executivo, Max Dyck.
O responsável adiantou, durante um testemunho por
videoconferência a partir da África do Sul no âmbito do inquérito judicial à
morte do britânico Philip Mawer durante esse ataque, que a DAG tinha um
contrato desde Abril de 2020 com o Governo britânico.
O
objectivo era “providenciar meios aéreos, porque eles não tinham nenhum” e
“treinar uma força especial da polícia para usar no combate dos insurgentes”,
disse.
Na
altura do ataque, a 24 de março de 2021, o contrato estava a terminar, “mas o
exército moçambicano pediu para ir ajudar”, acrescentou.
“A
missão era procurar e salvar pessoas, combater insurgentes e repeli-los”,
adiantou, referindo que as ordens eram dadas pelo Inspector-Geral da Policia,
em Pemba.
O
Governo moçambicano tinha declinado confirmar a presença de empresas privadas
de segurança na luta contra grupos armados na província de Cabo Delgado, norte
do país, justificando com “o caráter sensível” e “militar” do assunto.
Durante
vários dias, o DAG voou com os seus seis helicópteros para resgatar pessoas e
repelir os insurgentes junto das populações locais, envolvendo-se em combates.
“Tentámos reduzir o banho de sangue”, justificou o presidente-executivo,
revelando que terão retirado cerca de 240 pessoas.
Dyck
revelou que o primeiro de vários voos de resgate no hotel Amarula, em 25 de
Março, “foi feito a pedido dos moçambicanos, porque o administrador distrital
[Agostinho Ntawali] estava lá com a família”.
As
autoridades alegaram que, se altos dirigentes políticos fossem capturados,
complicaria a situação devido ao seu valor para os insurgentes.
A
grande concentração de “estrangeiros brancos” no hotel era outro motivo de
preocupação para os responsáveis moçambicanos devido ao risco de serem
sequestrados.
No
entanto, porque os helicópteros estavam sediados em Pemba, a cerca de uma hora
e meia de Palma, as intervenções foram limitadas pela necessidade de
reabastecer regularmente. Dyck confirmou que os vários pedidos à TotalEnergies
para usar o complexo de Afungi como base e abastecer combustível foram
rejeitados.
“Se
pudéssemos basear-nos na área e ter uma fonte constante de combustível,
provavelmente o resultado teria sido diferente e poderíamos certamente ter
salvado mais pessoas”, afirmou o sul-africano.
Além
de acesso a instalações médicas se fosse necessário, o complexo era visto como
uma localização segura para aterrar helicópteros durante a noite.
Recinto
com cerca de 200 de hectares de área, o complexo de Afungi é onde estão
concentradas as operações da TotalEnergies, incluindo uma força militar de 750
militares moçambicanos.
Durante
o inquérito foi mencionado que no local estavam também helicópteros militares
MI8 e MI24 da força aérea moçambicana operados por pilotos ucranianos.
Apesar
de terem maior capacidade do que aqueles usados pela DAG, estes não foram
usados para combater insurgentes ou operações de socorro, disse Dyck.
O
sul-africano disse acreditar que se o grupo tivesse mais combustível disponível
e ficado em Afungi, teria “ido mais vezes ao [hotel] Amarula e salvo mais
pessoas, provavelmente”.
O
inquérito judicial, a decorrer em Winchester, sudoeste de Londres, visa apurar
as circunstâncias da morte de Philip Mawer, de 59 anos.
O
britânico morreu quando viajava numa viatura que fazia parte de uma caravana de
17 veículos que tentou escapar do hotel Amarula em Palma no dia 26 de Março de
2021.
O
veículo foi atingido por uma granada lançada pelos insurgentes.
Mawer
trabalhava desde 2019 como diretor em Moçambique da RA International, uma
empresa sediada no Dubai que providencia alojamento temporário e outros
serviços logísticos.
Mawer
fazia parte de um grupo de cerca de 200 pessoas que se refugiou no perímetro do
hotel após o início do ataque de 24 de Março.
O
DAG realizou vários voos sobrelotados para retirar pessoas, mas o britânico e
outros estrangeiros deram prioridade a pessoas vulneráveis como mulheres,
crianças e doentes, testemunhou hoje Nick Alexander, que também estava no
local.
Max
Dyck negou que tenha sido o DAG a resgatar o gerente do hotel e os seus cães,
bem como outros funcionários do estabelecimento, alegando que terá sido outra
empresa privada.
“Recebi
telefonemas de muitos locais do mundo a pedir para recolher indivíduos, mas a
minha resposta foi que a decisão era dos moçambicanos”, vincou.
A
organização Amnistia Internacional denunciou posteriormente o grupo por alegada
discriminação racial nos resgates e o uso de armas de fogo e explosivos sobre
populações e infraestruturas civis.
Alexander,
que falou por videoconferência também da África do Sul, afirmou que as forças
armadas moçambicanas estavam “mal organizadas” e que a fuga do hotel Amarula em
caravana foi vista como a única opção perante a ameaça dos terroristas.
O
inquérito judicial, procedimento normal sempre que um cidadão britânico morre
de causas não naturais, decorre há dois dias e deverá terminar na Quarta-feira.
O
ataque de 24 de março de 2021, que se polongou por vários dias, levou à
suspensão do projeto da TotalEnergies na península de Afungi, situada a cerca
de 10 quilómetros de Palma, para explorar uma enorme jazida de gás natural.
Desde
2017, a província de Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada que já
provocou mais de 6.600 mortos e mais de 1,2 milhões de deslocados, tendo
registado desde 2025 incursões esporádicas para as províncias vizinhas de
Niassa e Nampula.
Dados
do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários
(OCHA) indicam que a violência armada em Cabo Delgado provocou 1.401 deslocados
em agosto e que os incidentes de conflito aumentaram 10% no primeiro semestre
deste ano face ao período homólogo.
O
Estado Islâmico, também conhecido localmente como al-Sunna wa Jamaa ou
Al-Shabaab, reivindicou os avanços do grupo em Cabo Delgado. (LUSA)