O Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos
Humanitários (OCHA) estima que os incidentes relacionados com o conflito armado
na província moçambicana de Cabo Delgado, no norte do País, tenham aumentado
10% no primeiro semestre de 2026, sendo os sequestros cada vez mais utilizados
para obter resgates e para o recrutamento forçado.
Num relatório intitulado “Moçambique: O Custo da Inação”,
o OCHA explica que a violência extrema perpetrada por terroristas islamistas em
Cabo Delgado tem um impacto significativo sobre a população civil, uma vez que
“foram registados mais de 400 incidentes relacionados com o conflito nos
primeiros seis meses de 2026. São 10% a mais do que no mesmo período de 2025,
incluindo homicídios, destruição de casas, saques e raptos.”
De acordo com o documento citado pela AIM, os sequestros
estão a ser utilizados sistematicamente para obter resgates e para o
recrutamento forçado, incluindo de crianças, “num contexto em que a violência
continua a alastrar-se a distritos com pouca exposição prévia ao conflito e
capacidade limitada para proteger a população”.
“Os civis são o alvo desta violência, não danos
colaterais. A insegurança prolongada e as deslocações repetidas estão a minar
os mecanismos de protecção familiar e comunitária.”
A província de Cabo Delgado, rica em gás natural, tem
sido assolada desde 2017 por uma insurreição armada que já causou mais de 6 600
mortes e o deslocamento de 1,2 milhões de pessoas, segundo organizações
internacionais.
O relatório da OCHA afirma que esta situação está a aumentar
os riscos de separação familiar, de recrutamento e utilização de crianças por
grupos armados, de violência de género, de casamento precoce, de exploração
sexual e de outras estratégias de sobrevivência prejudiciais. Atualmente, cerca
de 1,38 milhões de pessoas vivem com as consequências da deslocação em Cabo
Delgado, incluindo aproximadamente 662 000 pessoas deslocadas internamente e
722 000 residentes que regressaram às suas áreas de origem.
«Por trás destes números estão famílias repetidamente obrigadas
a abandonar as suas casas, crianças cuja educação foi interrompida e
comunidades cujos meios de subsistência e acesso a serviços básicos foram
destruídos. Para muitos, regressar a casa não significa regressar à normalidade
devido à insegurança persistente, à destruição de habitações, à perda de meios
de subsistência e à degradação dos serviços públicos», lê-se no documento.
A ONU alerta também para o agravamento das necessidades
humanitárias numa altura em que o financiamento continua a ser insuficiente. Em
particular, salienta que o Plano de Necessidades e Resposta Humanitárias para
Moçambique necessitava de 534 milhões de dólares americanos em Agosto, mas
tinha recebido apenas 227 milhões, o equivalente a 43% do montante necessário.
De acordo com o documento, os sectores da logística, da
educação e da nutrição estavam entre os menos financiados. Entretanto, em
alguns distritos mais afectados pela insegurança alimentar, a ajuda alimentar
foi reduzida a distribuições a cada dois meses, cobrindo apenas 39% das
necessidades calóricas mínimas.
“O custo da inação recai sobre as pessoas, não sobre os
programas. As lacunas de financiamento significam menos refeições, menos
serviços e menos oportunidades de recuperação antes da próxima crise. O OCHA
necessita de apoio financeiro urgente para impedir que a crise humanitária se
agrave”, lê-se na nota.